Mídias Públicas para a Democracia: mais de 160 pessoas de 16 países participaram do 2º Fórum Aberto Latino-Americano da Red TAL

15.10.2026

Durante quase duas horas e meia, sete palestrantes de cinco países e regiões refletiram sobre o papel dos meios públicos como infraestrutura democrática: sua autonomia diante dos poderes políticos e econômicos, a continuidade e o financiamento de que precisam para se sustentar e o desafio de ocupar um lugar próprio diante da concentração das plataformas digitais. A confiança das audiências, a defesa do “comum” e a cooperação com as universidades foram alguns dos conceitos que atravessaram o encontro.

Mídias Públicas para a Democracia: mais de 160 pessoas de 16 países participaram do 2º Fórum Aberto Latino-Americano da Red TAL

Na quinta-feira, 15 de outubro, foi realizado o 2º Fórum Aberto Latino-Americano “Meios Públicos para a Democracia”, organizado pela Red TAL em formato virtual. Com mais de 160 pessoas de 16 países, o encontro reuniu representantes de meios públicos, instituições acadêmicas e profissionais da comunicação para refletir sobre o papel da comunicação pública no fortalecimento das democracias da região.

O debate foi organizado em torno de três eixos: as condições institucionais necessárias para garantir o direito à comunicação, a continuidade e a sustentabilidade das políticas públicas e os desafios que a concentração das plataformas digitais impõe à soberania comunicacional.

A abertura ficou a cargo de Nicolás Schonfeld, diretor executivo da Red TAL, e de Malu Campos, presidente honorária fundadora da rede. Bráulio Ribeiro, presidente pro tempore da Red TAL e diretor de Tecnologias da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), coordenou o encontro. Em suas palavras iniciais, lembrou que “não há verdadeira democracia sem meios públicos fortes e sem jornalismo independente”. Alberto Calvo, coordenador acadêmico do Fórum, apresentou as perguntas que guiaram o debate: quais condições institucionais, políticas, sociais e tecnológicas os meios públicos precisam para garantir direitos e quais estratégias de cooperação regional podem fortalecê-los.

A apresentação especial ficou a cargo de Andoni Aldekoa de la Torre, diretor-geral da Euskal Irrati Telebista (EITB) e presidente da CIRCOM Regional, que compartilhou a experiência dos meios públicos do País Basco. Aldekoa propôs entender os meios públicos como uma “infraestrutura estratégica para a democracia e o futuro” e alertou que a confiança “já não é apenas reputação”: “tem de ser algo que se prova e se demonstra constantemente”. Destacou também a alfabetização midiática e o trabalho conjunto com as universidades, com o objetivo de ser “marcas de referência” para as novas gerações “quando precisarem de veracidade”.

Da Argentina, o sociólogo Luis Alberto Quevedo, ex-diretor da FLACSO Argentina e atual diretor da Pós-graduação em Opinião Pública e Comunicação Política dessa instituição, refletiu sobre a fragilidade das democracias contemporâneas. Apontou que um dos grandes desafios atuais é “recuperar a capacidade de pensar o comum”, entendido como “uma construção política sempre aberta, conflituosa, inacabada”, e defendeu o papel da comunicação pública como garantia de que esse debate exista.

Antonia Pellegrino, diretora-presidente da EBC, apresentou a estratégia digital da TV Brasil e da empresa. Explicou que os meios públicos devem “disputar a atenção das audiências” com as plataformas e que a diferença está no interesse público que orienta sua produção. Essa convicção se traduziu em uma aposta em conteúdos de utilidade pública e em debates aprofundados, que dialogam com a cultura popular e buscam reunir vozes diversas para “romper as bolhas”. Como caso emblemático, citou o programa “Sem Censura”, concebido como um “espaço de conversa sobre aquilo que temos em comum”. A estratégia se apoiou na escuta social e na análise de dados, e seu crescimento foi orgânico: a conta da TV Brasil no Instagram passou de 91 mil seguidores para 2 milhões entre 2023 e 2026, e o conjunto da EBC somou quase 3 bilhões de visualizações nas redes em 2026. “Nossa decisão foi ampliar a presença da comunicação pública e ocupar todas as telas”, afirmou, e sustentou que a comunicação pública pertence “ao campo democrático” e deve participar da “disputa de sentidos” dentro da sociedade.

Pelo México, Azucena Pimentel Mendoza, presidente da Red México e diretora-geral da @prende.mx, centrou sua exposição no financiamento. Lembrou que os meios públicos “fazemos parte da infraestrutura democrática” e propôs avançar para um modelo “progressivo, suficiente e diversificado” que dê segurança aos mais de 80 meios públicos de seu país. “O financiamento dos meios públicos fortalece a democracia”, sustentou.

Amanda Jaimes Mendoza, gerente-geral da Telecafé (Colômbia), apresentou seis condições para sustentar os meios públicos ao longo do tempo, entre elas a continuidade das políticas públicas, o financiamento previsível, a autonomia editorial e a escuta dos territórios e das infâncias. “Os governos mudam, mas o direito da cidadania a estar informada deve estar sempre assegurado”, assinalou. E encerrou com uma convicção: “Dar garantias para sustentar esse serviço é uma maneira concreta de cuidar da democracia”.

Diego de Charras, decano eleito da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, ressaltou o valor da articulação estratégica entre universidades públicas e meios públicos. Compartilhou os resultados do Diploma em Meios Públicos para a América Latina, que reuniu mais de 90 pessoas de treze países durante cinco meses e voltará a ser oferecido em 2027, e propôs três verbos como guia para o momento atual: “resistir, resguardar e reformar”.

Renata Turrent Hegewisch, diretora-geral do Canal Once do México, destacou o direito das audiências a receber informação verdadeira e o papel das defensorias das audiências. Explicou que os meios públicos têm “a obrigação de atender às necessidades, aos interesses e aos direitos das audiências” e compartilhou o caso de um programa de opinião coproduzido pelo Canal Once e pelo Canal 22 que alcançou quase o dobro da audiência do mais antigo do gênero na televisão privada mexicana.

Na rodada final, Diana Díaz Soto propôs desenvolver um indicador de alcance sociocultural próprio dos meios públicos, que não dependa da audiência medida por rating. Também participaram Luis Dario Tarullo e Claudia Ducatenzeiler, da Mundo U Argentina, e Alonso Millán, vice-presidente pro tempore da Red TAL, enviou uma saudação. Alberto Calvo encerrou com uma síntese: “A democracia se constrói com verdades, e este é um grande ato de verdade que tem a ver com fazer democracia a partir da comunicação pública”.

As intervenções coincidiram na necessidade de fortalecer a autonomia, a legitimidade social e a sustentabilidade dos meios públicos e de responder às transformações do ecossistema digital sem perder sua missão de serviço público. O Fórum valorizou, além disso, a cooperação entre meios públicos, universidades e instituições da América Latina como caminho para compartilhar experiências, fortalecer capacidades e avançar rumo a uma agenda regional de comunicação pública.

Na Red TAL, estamos convencidos de que o fortalecimento dos meios públicos requer instituições comprometidas com a pluralidade, a diversidade cultural, o direito à informação e a construção democrática, e reafirmamos a importância de sustentar estes espaços de encontro e intercâmbio.